Relato – Caminho de Mambucaba – 47 km na Serra da Bocaina

Atualizado: 4 de Ago de 2019

O Caminho de Mambucada, mais conhecido como Trilha do Ouro é uma caminhada de aproximadamente 50 km no interior do Parque Nacional da Serra da Bocaina (pnsb). Século atrás, esta rota fora utilizada por comerciantes e contrabandistas para escoar o Ouro de Minas Gerais para o Litoral. Por isso é conhecida como Trilha do Ouro. No Brasil existem diversas trilhas do ouro por aí, mas esta na Serra da Bocaina é a mais famosa. Essa é uma travessia bastante consolidada na região e já clássica do Brasil, que todo bom aventureiro precisa fazer. O trajeto inicia na Portaria do PNSB , em São José do Barreiro – SP e termina na região conhecida como Sertão de Mambucaba, em Angra dos Reys/RJ. Tradicionalmente este caminho é feito em 3 dias e 2 noites. Essa é uma trilha que abriga pelo menos três importantes remanescente: 1 de nossa História, 2 de Mata Atlântica e 3 de Cerrado. Em seu percurso ainda existe o calçamento de pedras, construído pelos escravos da época. E claro, as belezas naturais, de ponta a ponta é algo espetacular, onde os principais atrativos são as grandes, volumosas e lindas cachoeiras, como a de Santo Isidro com 50 m, das Posses com 40 m e do Veado com 200 m!

Para realizar esta travessia e pernoitar no interior do parque é necessário, antes de tudo, solicitar autorização com antecedência para a Administração do Parque. Este procedimento, embora pareça burocrático, é certa forma até simples, basta encaminhar os nomes e dados de cada participante por e-mail, informar o dia de início, duração, locais de pernoite, e data de término. Após enviar todos os dados, os responsáveis pelas reservas irão encaminhar todos os dados para a equipe da Portaria. Não é possível realizar esta atividade sem prévia autorização, pois logo na portaria, os Guardas do Parque checam os nomes daqueles que possuem a devida autorização.

É importante dizer que o PNSB é imenso, possui cerca de 104 mil hectares, e abrange diversas cidades: São José do Barreiro, Areias, Cunha, e no Litoral Paraty e Angra. Além da travessia tem o Pico do Tira Chapéu – o ponto mais alto da região, o Pico da Bacia - o segundo mais alto da região (sendo estes dois também um mais 10 mais altos de SP), a Pedra do Frade, a Pedra da Macela (divisa de Cunha/SP com Paraty/RJ, esta todos conhecem), entre outros, e ainda algumas praias no Litoral.


Três meses antes da travessia, já havíamos ido no Tira Chapéu e na Cachoeira de Santo Isidro (a primeira da travessia, o que serviu para ter um primeiro contato com a área e pegar dicas na Portaria). Quando realizamos a travessia foi inédita para todos nós, fomos num grupo de 13 pessoas, onde fora descobertas para todos. Como dito, só conhecíamos os primeiros 2 km da travessia, que que foi quando fomos na Cachoeira de Santo Isidro. Porém não tivemos problemas com o percurso.


A travessia fora realizada no Carnaval (saímos de São Paulo, sexta dia 9/2 a noite, e chegamos no sábado dia 10/2 por volta das 6h). A portaria abre a 6h da manhã, mas deu uma preguiçinha e ficamos cochilando um pouquinho mais na van. Logo depois pegamos as mochilas e fomos para a Portaria dar entrada. Nomes de todos na lista e tudo certo. Fizemos um belo café da manhã antes de caminhar, com direto a pães, frios, e tapiocas. Melhor do que em casa, que é apenas pão com manteiga (rs). Como a primeira cachoeira fica muito próximo não preocupamos comem sair cedo, pois sabíamos que não teria sol ainda e a água estaria trincando. Logo após 1,5 km do caminho tem a entrada para a Cachoeira de Santo Isidro. A trilha dá acesso pelo topo da cachoeira, pelos informativos da trilha, esta cachoeira tem o total de 80 km (se somada pelo parte de cima do rio, e 50 metros de queda principal). A cachoeira possui uma queda linda de mais e o poço é fundo arenoso e tem uma parte que forma uma prainha. A água estava um pouco mais forte do que quando fomos pela primeira vez, devido à época ser de chuvas. Depois subimos de volta para seguir o caminho...

O início do trajeto passa por estradas de terra que dá a impressão ser assim o caminho todo. Até a cachoeira das Posses (no km 8) o trajeto é o mesmo, seguir estrada, porém o que é legal é que existe muitos trechos onde é preciso atravessar rios, por dentro d’água em alguns bem rasos e outros por pontes/pinguelas. O caminho tem muito sol, com raros trechos de mata fechada. Talvez a maior dificuldade da trilha – a exposição ao sol com mochila cargueira, pois essa trilha não exige nada técnico. Por outro lado, por haver água no caminho todo não é preciso transportar grandes quantidades, 1 litro é suficiente para hidratação. Levamos um recipiente a mais apenas no momento de acampar, para usar no cozimento e higiene. Demos muita sorte, pois todos os dias foram de sol forte, pois na Bocaina é um lugar que todos detestaria pegar chuva (local muito exposto, cachoeiras cheias, rios cheios, e pedras escorregadias no no último dia, a saber mais adiante...).


Quando estávamos curtindo a Cachoeira das Posses notamos que o tempo estava mudando, chegamos a pensar em deixar a cachoeira mais cedo e prosseguir. Mas o tempo deu uma melhoradinha de novo e ficamos mais um pouco. Pelas fotos que havia visto o volume de água naquele dia estava um pouco maior, mas nada que atrapalhasse. Haviam outros grupos no local, inclusive alguns guias e empresa da região. Ninguém havia entrada na cachoeira, todos estavam apenas olhando da margem. O interessante é que só foi eu e mais um colega doidinho caminhar sobre o rio (que é bem raso também, porém com pedras até metade e areia na outra metade) e chegar até algumas quedas da cachoeira que outras pessoas também foram. Talvez estavam só esperando alguém ir primeiro... Essa cachoeira também é incrível, em questão de beleza a de Santo Isidro é superior, porém, esta, particularmente, achei melhor para curtir e aproveitas as quedas d’água (na de Santo Isidro chegar até aqueda d´água pode ser bastante perigosos, embora dê pra curtir sossegado o poço).

Até aqui foi só alegria. A nossa meta agora era chegar no acampamento. No primeiro dia, a maioria das pessoas fica na Pousada/Camping da Barreirinha, e esse foi nosso local também. Fica no km 18 do caminho, e das Posses até lá faltavam mais 10 km de caminhada. Parecia tão simples, 10 km geralmente faz-se em 2 a 3 horas, dependendo do terreno, com cargueira estimava mais 4 horas até lá. Saímos da cachoeira às 14h e chegamos no camping quase às 19h, alguns chegaram iam na frente chegaram mais cedo. O caminho até o camping é tranquilo, e possui placas sinalizando o Camping. Esse foi o trecho mais difícil do dia, possui algumas subidas e não sei se foi pela ansiedade em chegar logo, mas pareceu uma eternidade. O tempo ameaçava chover, essa é uma das preocupações também. Graças a Deus só choveu quando já estávamos no camping (apenas os 2 últimos pegaremos uns 2 minutos de chuva).


Choveu forte por alguns minutos, mas depois parou e não choveu mais. Camping montado, era hora de preparar o rango. Alguns dormiram, tomaram banho e jantaram na pousada. Mas a maioria no camping no quintal da Pousada. No primeiro dia tem esses mimos: dormir em cama quente, banho quente, jantar, café da manhã na Barreirinha. A Barreirinha é onde a maioria dos aventureiros costumas ficar. Vi alguns grupos montando acampamento selvagem um pouco antes dali. O valor do Camping não é caro então vale a pena. A vantagem é que tem banheiro e água fácil lá. Também tem outra Pousada/Camping da Dona Palmira, muito mais em conta, a desvantagem é que fica 3 km a frente. E 3 km faz muita diferença. Talvez se reservássemos lá chegaríamos já no escuro e esgotados. Mas fica a dica para quem quiser economizar.

Após jantar, foi só capotar na barraca. Dormi muito bem, coisa que antes não conseguia em camping. De noite chegaram algumas pessoas que estacionaram o carro na área de camping, que os colegas dizeram fazer muito barulho gritando para manobrar o carro. Tanto adormeci que não ouvi nada. No dia seguinte, fizemos um café, desmontamos o camping, e enrolamos muito para sair. A previsão era para sairmos às 9h e saímos às 10h. A nossa meta do dia era chegar na Cachoeira do Veado e acampar por lá. A caminhada era de cerca de 12 km, mais fácil do que no primeiro dia. Logo alguns km a frente uma surpresa: uma boiada no caminho e uma porteira fechada com os bois para fora (provavelmente algum grupo passou ali antes e fecharam para os bois não seguirem. O problema era que os bois ficaram encurralados e nós estávamos querendo passar pelo caminho). Fui caminhando com intenção de abrir a porteira para liberar os bois, só que um dos bois (que parecia ser o líder) não entendeu direito minha intenção rs, e ameaçou me atacar kkk. Era hora tive que correr para um barranco rs. Sabendo os bois não iam deixar passar por ali, procuramos uma alternativa por cima ou por abaixo, mas não tinha. A sorte foi um mais doidinho conseguiu achar um caminho por cima e passar, daí ele entrou e abriu a porteira para os bois passarem. Desta vez os bois entenderam e passaram. Os bois seguiram a trilha a nossa frente por algum tempo e depois seguiram seus rumos Bocaina a dentro. Este era dito ser o trecho mais bonito da caminhada. E realmente é muito lindo as paisagens que se formam, com diversos cenários diferentes. Após 3 km dali passamos em frente e Pousada da Dona Palmira, conversamos um pouco com o filho da Dona Palmira, muito gente boa. O curioso foi que eles vendem refrigerante e cerveja, não tomamos cerveja pois não é permitido em nossas caminhadas (só no final, como celebração), mas tomamos uma coquinha ali no meio do nada (rs). Após pausa seguimos em frente, algumas subidas, algumas descidas, muita paisagem bonita, e por voltadas 16h chegamos na área de Camping, ficamos próximo das Ruinas da Casa Queimada, em uma gramada muito amplo, próximo do rio e cerca de 1 km da cachoeira. Montamos primeiro as barracas, trocamos de roupas, largamos as botas, pegamos o chinelo e fomos curtir a imponente Cachoeira do Veado. A reação ao chegar lá me lembrou a Cachoeira do Meus Deus em Eldorado, quando se caminha pela mata e pelos rios e de repente surgi aquela queda imensa e incrivelmente bela, que logo a primeira reação é falar “Meu Deus”. A diferença é que a Cachoeira do Veado é quatro vezes maior! Você anda pela mata fechada e logo quando se está chegando ouvi o barulho da água caindo, e já percebe que o que tem ali é algo imenso, e quando finalmente chega não dá pra explicar a sensação, é algo extraordinário. O tamanho e a quantidade de água é impressionante.


No terceiro e último, acordamos muito cedo, 5h da manhã, pois o plano precisou ser alterado, e a ideia era desmontar acampamento e sair assim que o dia clareasse. Isso porque, o planejamento inicial previa andar apenas 12 km no ultimo dia, da Cachoeira do Veado até o ponto de resgate. Mas havia visto no mapa do parque que seria necessário percorrer 18km até o final da trilha, daí surgiu uma grande dúvida qual sobre estava errado. Perguntei há algumas pessoas (entre eles um guia local, e ele havia confirmado), então no dia anterior combinamos com todos já deixar as mochilas o máximo organizadas possível, para facilitar no dia seguinte, pois teríamos que desmontar as barracas e guarda-las ainda no escuro. Por volta das 6h20 caminhamos rumo trecho final. Ao contrário dos trechos anteriores, este a mata é praticamente toda fechada e o caminho é uma trilha propriamente dita. Acredito que o trecho que requer maior disposição e cuidado, pois havia muita mais muita lama, o que tornava a caminhada mais lenta, e também tem as pedras do calçamento histórico que são escorregadias. Algumas pessoas estavam com bolhas nos pés e isso, para eles, ficou ainda mais complicado. Nosso ritmo era de 2 km por hora (rs), e a grande preocupação era chegar no ponto de resgate Às 14h horário combinado -no entanto se atrassasse um pouco não seria problema. O problema era que naquele ritmo, se fosse 18 km mesmo, só chegaríamos no ponto de resgate às 18h e em SP muito tarde. Mas toda aventura tem seu perrengue. No fim, o grupo teve muito senso de equipe, eu, um colega do grupo e outro rapaz que encontramos por lá trilhando em modo solo ajudou muito. Às 13h parte do grupo estava à frente num belo mirante aguardando aquele com mais dificuldade. No meu track log que estava usando para seguir e gravar a trilha mostrava que daquele ponto faltava apenas 3 km do final da trilha. Então, conferi direito e vi que meu plano inicial não estava errado, então dali em diante não faria sentido se preocupar tanto. Fui ajudar o outro grupo, e quando voltei um dos colegas já havia ido até a onde a van estava aguardando e voltou para ajudar os demais. Dali em diante, foi tranquilo, aquela sensação de alivio em saber que está tudo indo bem voltou...


Pulei uma parte do roteiro, no último ainda tem a Cachoeira da Memória, não tivemos muito tempo para explora-la, mas pareceu mais uma corredeira bastante larga, com grande volume de água. Só tirei algumas fotos. E logo em diante tem o Riacho da Memória. Este ponto é interessante, pois fica bem na divida de SP/MG. Logo após passar pelo riacho já se está em terras fluminenses.


Por fim, antes de chegar no ponto de resgaste, ainda é necessário atravessar um rio. Existe um ponte suspensa que está com um arame faltando, que alguns passam outros não. Contornamos e passamos por dentro do rio mesmo. Foi uma delícia, pois permite se refrescar e relaxar um pouco. A partir daí é só caminhar o restante da trilha até a ‘’Ponte de Arame” – local de resgate. O caminho de Mambucaba na verdade continua estrada a frente por mais uns 12 km (se não me engano), mas é comum entre os trekkers marcarem o ponto de resgate ali. Esta é uma parte conhecida como Sertão de Mambucada. Tem uma grande ponte de arame que atravessa o rio. Neste ponto também é possível (e recomendado) tomar um banho de rio. Finalizamos por volta das 14h40-15h. Ficamos um pouquinho lá, nos trocamos, jogamos as mochilas na van e fomos caçar um restaurante pela cidade. Alguns restaurantes caros, outros lotados, pois era lá beira da estrada que dá acessa a várias praias de Angra/Paraty. Até que achamos um PF por 25,00 e foi este mesmo. Depois de 3 dias na mata a sensação de comer algo “de verdade” é muito boa. Comemos, bebemos, e voltamos direto para SP, onde chegamos 23h.


Foi uma experiência incrível, onde foi possível conhecer belezas incríveis, conhecer um pouco mais de cada pessoas, de si próprio, e trabalhar muito altruísmo e senso de equipe. No final, bate aquela saudade de voltar. O que farei com certeza.


Quem deseja fazer este roteiro é bom estar alerta a previsão do tempo. Fizemos no carnaval, uma época não ideal para trekkings assim, por ser época de chuvas e raios. Ao mesmo tempo, é uma época de muito calor, ideal para as cachoeiras da região. Ficamos muito atentos a previsão do tempo, claro, e demos com muita sorte pois fez muito sol e não tivemos problemas com chuva. Na chuva o trecho final pode ficar com muita mais lama e muito mais escorregadio, por isso requer atenção.







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